Hoje eu quero falar sobre respeito.
Tem pouco mais de um mês que cheguei na Austrália e estou adorando o país. De verdade, estou mesmo. Mas vou te falar de coisas que ninguém te prepara, no máximo as pessoas te avisam mas não podem te passar os sentimentos pelos quais elas passaram.
Tá difícil arrumar emprego aqui. Difícil mesmo. Na minha área, quem sabe, uma hora dou sorte e uma das empresas para onde mandei meu currículo me ligue. Você precisa arrumar outros empregos então porque se você consome em dólar você precisa ganhar em dólar. Matemática simples pra quem já foi pra fora do Brasil algum dia.
Os únicos empregos que consegui foram de cleaner. Você sabe o que é isso? Vou te dar mais do que uma definição aqui. O primeiro dos empregos foram duas brasileiras lindas, com um amor do tamanho do mundo que elas já percorreram, CEDERAM. É isso mesmo, vendo que não aparecia emprego elas tomaram uma iniciativa e ofereceram dois dias de limpeza semanal que elas fazem numa loja de um shopping aqui, um sábado e um domingo.
PAUSA. Larissa e Ana, vocês são anjos, lindas e incríveis. Não deixem ninguém abalar isso! Obrigado! Nunca vou esquecer. Vocês me lembram duas amigas incríveis que temos no Brasil, Marina e Amanda, que são como vocês. Ninguém substitui ninguém mas Deus colocou vocês no nosso caminho também pois sabia que precisávamos desse carinho que tínhamos delas lá e por isso agradecemos a ele.
O outro emprego, também de cleaner, é num restaurante. Limpeza pesada, chão muito sujo, mesas e guarda-sóis pesados, tapetes imundos, cadeiras e bancos pesados que precisam ser limpos e colocados no lugar TODO DIA. Esse trabalho é todo dia. Digo e enfatizo, sete dias na semana, sem fim de semana, sem feriado, sem folga, todo dia, às três horas da madrugada.
Você pode parar de ler o post aqui, se quiser. Não vou te julgar e você vai entender porque sempre faço o exercício de não julgar as pessoas.
Se você resolveu ler o resto, você vai me escutar.
Nesse momento estou chorando. Chorando mesmo. Lágrima escorrendo. Estou com o celular na mão escrevendo este post sentado numa praia linda porque preciso sentir Deus perto de mim, e o mar faz isso muito bem. Acabei de sair do restaurante onde gastei duas horas e meia pra limpar, pois fui sozinho hoje, e estou aqui esperando dar a hora para ir ao shopping (às 9h preciso estar lá), pois se eu voltar para casa agora, do jeito que estou, eu pego um avião de volta para o Brasil. Só que isso não é justo.
Eu quero fazer um pedido. Um pedido de respeito. No Brasil a gente está cansado de saber que muitos vão para o exterior e trabalham pesado. Nada demais. É aí que você se engana. É demais sim. É experiência demais, é "tapa na cara" demais, é lição de vida demais, é lição de respeito, amor, dignidade e humanidade demais.
Respeitem uns aos outros. Respeitem as pessoas que cuidam de vocês. Tem gente que vem para o exterior e trabalha feito condenado.
Nós temos milhões desses "condenados" no Brasil.
Respeite o "condenado" que limpa seu chão.
Respeite o "condenado" que lava sua sujeira.
Respeite o "condenado" que limpa sua mesa.
Respeite o "condenado" que deixa um copo de água na sua mesa todo dia.
Respeite o "condenado" que te atende.
Respeite o "condenado" que limpa as duas metades do morango que você derrubou no chão. "Ops!"
Respeite o "condenado" que limpa o vaso que você sujou porque não usou a pontaria que você tem ou a mania de jogar coisas íntimas no banheiro para que catem.
Respeite o "condenado" que limpa a lagartixa morta que você pisou sem querer.
Respeite o "condenado" que limpa as cinzas dos cigarros que você fumou e jogou no chão.
Respeite o "condenado" que deixou a família em casa sob os cuidados da avó ou do irmão mais velho e aguenta suas brincadeiras sem graça porque você está bêbado e saindo da balada enquanto ele tá começando o trabalho dele.
Respeite o "condenado" que vai pegar com a mão o chocolate que você derrubou, pisou sem querer e foi parar onde a vassoura não alcança.
Respeite o "condenado" que vai esfregar a cerveja que você derramou no chão e secou ali junto com suas pisadas.
Respeite o "condenado" que vai catar os cigarros, os guardanapos, os canudinhos, a comida, os papeizinhos que você deixou cair no chão.
Respeite o "condenado" que te deu bom dia e você não respondeu.
Respeite o "condenado" que não te dá mais bom dia por isso.
Respeite o "condenado" que trabalha feito condenado de cabeça baixa porque você e outros não dão bom dia pra ele.
Tem milhões de "condenados" no Brasil que tem trabalhos assim talvez uma vida toda. Só que eles não são condenados. São abençoados. E todos nós sabemos disso. Deus tem um amor especial para eles. Se esses puderem ler este post quero pedir desculpas a todos que deixei de respeitar.
À pessoas como Juarez, Ju, Antonio, Neide, Deusimar, Ligia, Francisca e outros com quem tive o prazer de fazer amizade, fica aqui o meu respeito e aplausos.
Quero pedir respeito entre nós. Que sejamos iguais nas nossas diferenças. "Que todos sejam um" (Jo. 17:21) está marcado em mim, na pele, na alma e no coração.
Tô aqui vendo um nascer de sol lindo mas com vontade de ir para casa descansar. Você sabe que sensação é essa? Estar no paraíso e trocar somente pelo calor da sua cama?
Tô aqui chorando ainda, brigando com Deus dizendo "Se você queria me ver chorar, conseguiu!" e ao mesmo tempo agradecendo ele porque hoje não tá ventando tão frio e finalmente o sol está nascendo me trazendo um sensação gostosa no peito. Deus é meu brother. Já disse isso em outro post aqui.
Continuo chorando mas com o peito diferente.
Respeito. Dignidade. Gratidão. Humanidade. Amor.
É só o que eu peço.
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Escrevi esse texto hoje de manhã. Um desabafo, claro.
Passei o dia todo pensando se postaria mesmo ou não mas achei alguns pontos importantes, principalmente o pedido, que continua de pé.
Desculpa "aê" qualquer coisa.
Como eu disse, o nascer do sol hoje foi incrível. Quase tirei uma foto mas resolvi não perder um segundo dele. Coloco então uma foto da semana passada, tirada no mesmo lugar. O nascer do sol de hoje não foi nem a metade desse da foto e ficará comigo.
Abraços.
João Paulo.

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